domingo, 12 de abril de 2009

Realidade Paralela


Deixem-me ver o sol com os olhos fechados,
sentir a frescura dos dedos molhados,
passar a mão na areia, sentir a sua textura,
deleitar-me em sonhos, na tua procura,
ver o brilho dos teus olhos em cada olhar,
em cada um dos teus gestos de ternura.
Permitam-me a razão, perdoem-me a duvída,
compreendam o tacto perante a visão dúbia.
Excessos, retrocessos, processos, projectos
questões, respostas,
infindáveis fantasias sobre realidades propostas.
Certezas incertas, irregularidades perfeitas,
vontade de viver por entre as palavras que aceitas,
de mim, para ti, para quando precisares, eu estar aqui.
Deixem-me abrir os olhos e ver o brilho,
sentir a doçura dos dedos desenhados,
agarrar um punhado de areia, atirá-la ao vento,
ver a tua silhueta surgir no momento.
Sonhar acordado, tornar tudo verdade,
só eu sei, que quando fecho os olhos, eu tento.

"Nuno C. PInto"

Publicidade! Mas com algo...


A Espantosa Realidade das Coisas


A espantosa realidade das cousas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada cousa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.

Basta existir para se ser completo.

Tenho escrito bastantes poemas.
Hei de escrever muitos mais. naturalmente.

Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto.

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada.
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.

Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.

Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
Nem idéia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.

Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer cousa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.

"Alberto Caeiro"

????

Losango de Volta???

sexta-feira, 4 de julho de 2008

A Um Só Tempo


Por vezes paro no tempo
e viajo sozinho,
levado pela brisa de um suspiro
na inspiração do momento.
Reclamo para mim
mundos e fundos
no quebrar da corrente,
na vaga de um elo ausente,
num acordar de repente
no qual caio no presente.
Refuto, não consigo;
disfruto; talvez,
mas o que sei e pergunto,
não sei e respondo,
o que perco e encontro
o que encurto e prolongo,
só sei, e não sei,
onde sinto profundo,
onde o caminho que percorro
se torna curto ou longo.
Paro no tempo.
Viajo sozinho.
Levado pela brisa,
o encanto do momento,
que vezes sem conta
qual despeito e afronta
me interrompe a corrente
do suposto pensamento.
Rasgo papéis, parto canetas,
risco palavras, apago as letras
que presas na folha
ou soltas no ar
formam enigmas,
ou quebram barreiras,
abrem janelas
para eu poder respirar.
Por vezes suspiro,
este; mais um.
Tenho todos, não tenho nenhum.
Posso ter imensos
num turbilhão de sentimentos,
mas quando paro!
Só preciso de um.


"Nuno C. Pinto"